Crise 27 Fev 2019

Um mundo de incertezas: Tendências de Risco 2019

A necessidade de colaboração entre múltiplas partes interessadas com o fim de procurar soluções para os problemas globais partilhados nunca foi tão urgente. A polarização está a aumentar em muitos países. Nalguns casos, os contratos sociais que mantêm as empresas unidas estão a deteriorar-se. Novos riscos associados às mudanças tecnológicas trazem novas incertezas que requerem novas abordagens e soluções.

Neste relatório, voltamos a analizar as tendências do risco para o ano que começa, com base no artigo «The Global Risks Report 2019», do World Economic Forum. Na segunda parte, analisaremos os riscos que as empresas deverão enfrentar em 2019, na perspetiva da comunicação em situações de crise.

Renovar e melhorar a arquitetura dos nossos sistemas políticos e económicos, nacionais e internacionais, é a tarefa que define esta geração. Será um esforço monumental, mas indispensável. O relatório dos riscos globais revela a magnitude do risco e aquilo que está em jogo. Esperamos que o relatório deste ano também ajude a criar um impulso associado à necessidade de agir. Começaremos pelos riscos menos relevantes, que se desenvolvem mais lentamente, passando depois para aqueles que surgem de forma rápida e violenta, previstos para este ano. Abordaremos a computação quântica, os direitos humanos e o populismo económico.

Cada vez mais divididos

De um período de transição para a globalização, passámos para um processo de regresso à desagregação, ao nacionalismo e ao populismo. Neste contexto, o protecionismo dos países que só se preocupam com eles próprios não parece ser a melhor receita para coordinar soluções como, por exemplo, a luta contra as alterações climáticas, que requer esforços globais coordenados.

Depois da COP 21 e do entusiasmo que criou, a COP 22 e a postura de países como os EUA reforçaram a preocupação mundial relativa aos riscos das alterações climáticas, consideradas a principal ameaça ao futuro da humanidade.

Prevê-se que, em 2050, dois terços da população mundial viva em cidades. Em 2019, estima-se que 800 milhões de pessoas vivam em mais de 570 cidades costeiras vulneráveis a um aumento do nível do mar de 0,5 metros em 2050. É o círculo vicioso do risco. As cidades atraem cada vez mais pessoas para zonas costeiras de risco, contribuindo para a destruição das fontes naturais de resistência, como os manguezais costeiros, aumentando a tensão nas reservas de agua subterrânea.

Rumo ao abismo tecnológico

A vulnerabilidade tecnológica não se cinge às ciberameaças, embora estas continuem a crescer exponencialmente e a ameaçar infraestruturas tecnológicas. Há outras vulnerabilidades tecnológicas – sem dúvida, a falta de fiabilidade dos meios de comunicação, a desinformação e o roubo de identidades continuarão a crescer em 2019. A preocupação também abrange a imprescindível proteção dos dados. Aquilo que aconteceu com o Facebook e a Cambridge Analytica explica o agravamento da preocupação global. O futuro é incerto devido aos efeitos colaterais da combinação da robótica com a inteligência artificial. Há uma incerteza relativa ao efeito que isto causará na perda de empregos e na criação de novas profissões. Coloca-se mesmo a questão: será que as máquinas, dotadas de consciência e de uma inteligência superior, poderão assumir o controlo do nosso futuro? Será possível que haja máquinas cada vez mais inteligentes que, graças a procesos de Machine Learning, consigam lançar ataques cibernéticos cada vez mais sofisticados? Será que isto instaria os países a estabelecerem acordos transfronteiriços para se protegerem, ou será que os países decidiriam fechar-se sobre si mesmos e aumentar as barreiras, isolando-se dos demais?

Um ser humano cada vez mais isolado

Enquanto a incerteza relativa ao futuro da humanidade não para de aumentar, como é que cada indivíduo enfrenta isto, estando cada vez mais isolado dentro da hiperconexão generalizada? Em todo o mundo, há 700 milhões de pessoas com problemas de saúde mental. De facto, o stress relacionado com o sentimento de falta de controlo perante a incerteza está a tornar-se uma pandemia global. Como diría o historiador israelita Yuval Noah Harari, será que devemos ignorar a possibilidade de chegarmos a um mundo onde os robôs consigam assumir o controlo e produzir tudo aquilo de que precisamos? Se não formos necessários para nos sustentarmos, acabando por receber, no ciclo do capitalismo, rendimentos mínimos para continuarmos a consumir, para onde caminhará a humanidade?

Os riscos biológicos

No entanto, antes de lá chegarmos, temos de nos preocupar com as restantes ameaças que temos ao virar da esquina – por exemplo, os patógenos biológicos. A forma como vivemos tem mudado cada vez mais. Não podemos desconsiderar a possibilidade da ocorrência de novas ameaças biológicas, para as quais o mundo está mal preparado; estas poderão provocar um surto devastador, causando danos sérios. A nova biotecnologia revolucionária promete trazer avanços milagrosos, mas também levanta enormes desafios de supervisão e controlo – em 2018, foram alegadamente criados os primeiros bebés geneticamente modificados. A questão é esta: se um país mais permissivo no que toca ao controlo enveredar por este caminho, acreditamos mesmo que as restantes potências mundiais ficarão de braços cruzados?

Luis Serrano
Ex-Diretor global da Área de Crise da LLYC em Espanha
Licenciado em Jornalismo, é um dos maiores especialistas de Espanha em gestão da comunicação em situações de emergência e de catástrofes, bem como no desenvolvimento de protocolos de ação em crises nas redes sociais. Durante 17 anos, foi chefe de imprensa do Centro de Emergências 112 da Comunidade de Madrid, onde participou ativamente no tratamento de situações relevantes, como o atentado de 11 de março em Madrid. Interveio em mais de 100 sinistros industriais, acidentes com múltiplas vítimas, acidentes em centros de lazer, crises sanitárias, etc. Fruto de suas experiências é o livro 11M y otras Catástrofes. La gestión de la comunicación en emergências, do qual é autor. Possui também uma vasta experiência docente no campo da emergência e da gestão de crises. Como jornalista, trabalhou durante sete anos nos serviços informativos da Onda Cero.
Margorieth Tejeira
Diretora Sénior da Área de Crise da LLYC em Panamá
É presidente da Dircom Panamá. Foi Gerente de Comunicação do Banco Nacional do Panamá, tendo sido responsável pelo processo de divulgação e gestão de crises do projeto de modernização do banco estatal. Trabalhou no Ministério do Comércio e Indústrias do Panamá durante o processo de elaboração do Tratado de Promoção Comercial com os Estados Unidos. Tem experiência na gestão de contas na área de infraestrutura, relações públicas e de crise. Formou-se em jornalismo pela Universidade do Panamá e tem um diploma em Tratados de Livre Comércio pela Universidade Latino-Americana de Comércio Exterior. Exerceu como jornalista, apresentadora e foi coordenadora de notícias em meios de comunicação de rádio e televisão.

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